segunda-feira, 19 de maio de 2008

Estações (primavera)

- Eu quero um MacFish.

Nossa! Ela era realmente especial. Quem comeria um MacFish com aquela infinidade de opções bem mais saborosas? O pária dos sanduíches...

- Você tem uma visão muito convencional das coisas – diria ela. Ou qualquer coisa equivalente...

Na verdade não importava o que ela dissesse, qualquer frase saída de sua boca tinha profundidade, sabedoria, beleza... Sabe aqueles momentos em que algo que até então era obscuro se torna claro, transparente, óbvio? Então, era isso que acontecia toda vez que ela me dizia algo. Não era só a frase... O olhar. Como ela conseguia alternar um completo desnudamento de alma à tamanha impenetrabilidade? Tinha mais: Todo o gestual, a maneira de balançar os longos cabelos negros... Toda vez era aquela sensação: Meu Deus! Como nunca pensei nisso...

E lá estava ela, com os cantos da boca borrados de molho tártaro. Era isso que colocavam no MacFish? Bem, aquele jeito descompromissado, natural, que conseguia ser misterioso, sensual, perigoso... Que todos os poetas me perdoem por xingá-los tantas vezes: Que idiota! Com tanto clichê assim até parece propaganda de margarina! Claro que amor rima com dor! Bem, aqui estou eu rendido ao império do óbvio... Era como eu me sentia perto dela: Óbvio. Burocrático. Quase um bancário. E ela era... um MacFish! No meio de tantos Big Macs, Quarteirões, Cheddars...

Nos conhecemos próximo aos cinzeiros de um terminal de ônibus. Descobri que ela trabalhava por perto, assim como eu. Saíamos no mesmo horário, daí advinham nossos encontros recorrentes. Falávamos amenidades entre uma baforada e outra, mas desde aqueles momentos iniciais algo inusitado costumava assaltar minha percepção: fosse um trago mais prazeroso, uma pequena felicidade fortuita – mesmo dentro de um ônibus lotado de pessoas nada amistosas –, uma música tocando em minha cabeça, até mesmo a beleza das coxinhas da lanchonete sórdida do terminal.

Nossos encontros tornaram-se mais freqüentes. Nossa conversa fluía. Não caudalosa como você gostaria de ouvir, simplesmente fluía. O terminal tornou-se pequeno para tamanha abundância de palavras. Começamos a ligar um para o outro, passávamos horas ao telefone. Parecíamos ter um estoque inesgotável de assunto. Tudo era importante. Tudo.
Mas aquele foi o primeiro dia em que saímos dos limites do terminal de ônibus. Ela disse que estava com fome. Sugeri que fôssemos a algum lugar.

- O que você tem em mente? – Ela perguntou.

Um monte de coisas... Sórdidas... Perversas...

- Podíamos ir ao MacDonald’s... Quem acima de 15 anos convida uma garota para ir ao MacDonald’s!

- Ótimo!

Eu estava absolvido! A convicção, o entusiasmo quase infantil... Quando eu pensei ter arruinado tudo, eis que sua aprovação faz com que o horror para qualquer militante natureba se parecesse com o mais refinado restaurante. E lá fomos nós, enquanto o sol se punha preguiçoso.

- Eu quero um MacFish.

E toda a leveza de uma existência tranqüila se desdobrava a minha frente...

2 comentários:

Anônimo disse...

Se os corpos "desgastados" do "inverno" de uma relação estão representados no outro conto do conjunto Estações, neste é o renascimento primaveril que é muito bem retratado, já parecendo apresentar uma condição cíclica das paixões.
Estou ansioso pelo verão e outono!

Fernando disse...

Essa mistura agridoce do impulso da "primavera" com a inércia do "inverno" deve ser continuada e trazer novos sabores.
Faço coro com André: estou ansioso pelo fechamento do ciclo das estações.