sábado, 17 de maio de 2008

Estações (inverno)

Subitamente ele se viu transportado no tempo e no espaço. Foi em uma noite de frio intenso. Três, talvez dois anos atrás... Difícil lembrar. Mas as sensações ainda impregnavam sua lembrança. O frio, intenso e agradável, fazia que as pessoas se aconchegassem umas às outras. O vapor saía de suas bocas e logo em seguida desaparecia no ar. Ali estava ela, sorvendo calmamente sua xícara de chocolate quente e prestando atenção a cada palavra que ele dizia. O olhar expressava carinho, desejo, amor... Ele sentia aquele, tantas vezes descrito, mas tão pouco explicado, frio na barriga. Bem em sua frente estava materializado seu sonho em forma de mulher. Os cabelos negros, os olhos castanhos, a pele branca. Ele a amava. Sim. Ele a desejava como jamais desejou alguém em sua vida. Bem, se desejou ele não se lembrava... Cada olhar, cada toque, cada sorriso indicava: sim! É ela! Então realmente isso existe... E ele que sempre ridicularizou essa história de almas gêmeas, amor eterno, ali estava sonhando em ser pai de todos os filhos que ela desejasse. Sim. Lembrou-se do primeiro beijo, da suavidade daqueles lábios. Eu te amo. Eu também! Terceira semana: vamos ao meu apartamento. Sim. Ele viu suas pupilas se dilatarem. Sim Tire minha roupa. Sim. Jamais sentira tanto prazer. Bem, aquilo foi outra história, pura luxúria. Nem foi tão bom assim... O que eles viviam era diferente, pleno.

Foi a tarde fria, a jaqueta e a blusa que ele estava vestindo que acarretaram todas aquelas lembranças. Dois, talvez três anos... Ele vestia a mesma jaqueta, a mesma blusa... O frio...

A lembrança o deixou feliz, um sentimento confortável preencheu seu espírito. Mas algo estava diferente: a jaqueta estava desbotada, a cor da blusa já não tinha a vivacidade de outrora. Desgastadas. De feliz passou a reflexivo. Lembrou-se dela. Ele sabia que quando chegasse em casa lá estaria ela. Possivelmente em frente à TV. Oi, amor, já em casa? Por que eu não sinto mais tesão por você? A comida ainda está quente. Por que eu me excito ao ver o decote da estagiária? Temos que ir ao supermercado amanhã. Por que eu me masturbo no banheiro do escritório pensando em qualquer mulher menos em você? Senta aqui. O corpo dela é frio. A troca de carinhos é mecânica. As marcas do tempo são evidentes. Os diálogos que costumavam ser estimulantes tornaram-se enfadonhos. A beleza das frases sem sentido reverteu-se em franca estupidez. Vamos para a cama? Vamos. Sem vontade. Você me ama? Não! Sim. E você? Sim. Não! Ele pensa em amores eternos que passaram pela sua vida para se excitar. Não basta. Pensa em vagabundas que comeu em algum banheiro sórdido. Isso. Lembra de orgias das quais participou. Isso. Me fode! Sim! Me xinga! Sim! Me bate! Sim! Ele se masturba no corpo dela, até gozar, até ejacular toda a amargura que impregna seu corpo, sua alma, a insuficiência de ambos. Deitam-se lado a lado. Mudos. Faz frio. O corpo dela é frio. O corpo dele é frio. Desgastados.

Um comentário:

Tiel Lieder disse...

o corpo frio do amor morto... belo conto... e triste...e real...