Foi a primeira vez em meses que ele lembrou sentir uma brisa tão fresca e confortante. Fechou os olhos para desfrutar daquele momento com maior intensidade. Gostava da brisa, gostava do vento. Relacionava o vento a mudanças. Mesmo antes de saber que isso era um clichê. Animou-se a dar uma volta pela cidade; o calor excessivo dos últimos meses havia feito que ficasse a maior parte do tempo recluso, fato que fez que ele não percebesse que o céu estivera nublado já há algum tempo.
As ruas da cidade estavam mais vazias, já haviam perdido boa parte da louca excitação suscitada pelo verão. Bem melhor assim... Não tava agüentando mais! As ruas também já tinham folhas suficientes para se configurar uma mudança de estação. Mudança... é o que move... Tentou se lembrar de algo que escrevera há muito tempo, não conseguiu. Mudanças... Pensou em como sua vida havia mudado... O vento ficava mais gelado à medida que a tarde avançava, derrubando mais folhas das árvores que já aparentavam cansaço.
Quantas pessoas já conhecera? É óbvio que não se referia a toda e qualquer pessoa que já conhecera, mas sim àquelas que foram importantes. Não teriam sido todas, de alguma forma, importantes? Não... Definitivamente não!
Para ele, sempre fora difícil entender por que algumas pessoas que eram tão próximas, tão leais, simplesmente desapareciam... E as juras de amizade eterna? De amor eterno? Normalmente sentia-se traído, rejeitado, passado para trás...
Lembrou-se de A... Ele fora o irmão que ele nunca tivera. Nunca havia conhecido alguém que o entendesse tanto, que soubesse exatamente como ele se sentia, que tivesse sempre a resposta certa para seus dilemas... Lembrou-se da primeira vez que conversaram, como tudo fluíra de maneira quase mágica, o entusiasmo explicitado pelos movimentos amplos, o brilho nos olhos de ambos, a cumplicidade... Será que finalmente aquele meu sentimento de ser o único da minha espécie no mundo iria acabar? Lembrou-se também do último encontro: a distância, a educação excessiva, a formalidade... Reconhecera que não gostava daquela pessoa que bebia cerveja de modo afetado, destilando bravatas que não o interessavam... Chegava a culpá-lo por ter se distanciado tanto do amigo que conhecera... Parece outra pessoa... Como isso pode acontecer? Curiosamente, ele não percebia que também havia se distanciado do que fora. Ambos eram pessoas diferentes. Ambos sabiam que não se veriam novamente. Ainda assim, ele insistia em culpar o outro por não ter permanecido leal ao que outrora fora. E a mesma história se repetiu com B, C, D, E... Tantas vezes que não conseguiria se lembrar de todas.
À medida que caminhava pelas redondezas sentindo o vento suavemente mover seus cabelos observava que, assim como as pessoas que passaram por sua vida, inúmeros lugares haviam mudado também. Às vezes era difícil se situar... Não espacialmente, mas sim de uma forma que não saberia ao certo definir... A sensação, agravada pela brisa incessante, era a de que seu mundo era modificado aleatoriamente, sem sua permissão. Era como se ele fosse uma das folhas levadas pelo vento, impotentes, passivas... Comandadas por forças muito além de seu poder ou entendimento. Apegava-se às coisas que, de alguma forma, o transportavam para a segurança do mundo de suas lembranças... Músicas, filmes, livros; até certos pratos e certas bebidas...
A antiga mercearia fechara já há algum tempo, assim como o antigo casarão de que tanto gostava fora demolido para dar lugar a um prédio envidraçado, estéril... É muito estranho tudo isso, me sinto como se não houvesse mais espaço para mim... Mesmo a praça onde passara tantos momentos agradáveis era agora apenas um monte de entulho com restos de brinquedos enferrujados.
A força do vento aumentava, assim como sua sensação de impotência. Então era mesmo assim.... Amizades, amores, árvores, prédios, casas, avenidas, famílias, corpos, animais de estimação, discos, livros... Tudo varrido pelos ventos... Tudo efêmero... Tudo se esvaindo, dia a dia...
sexta-feira, 13 de agosto de 2010
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